Entre aquilo que digo
e aquilo que escutas,
há um rio.
Nele desembocam
as águas antigas,
as chuvas que atravessamos,
os medos que escondemos
sob a roupa cotidiana.
Minha palavra parte de mim
como um barco pequeno,
carregando no casco
tudo o que não revelei.
Mas talvez chegue a ti
com outro nome,
outro peso,
outra tempestade.
Porque também há rios
dentro de quem escuta.
Há margens feridas,
pontes desfeitas,
correntezas que acordam
ao menor movimento da voz.
E, de repente,
já não conversamos apenas
sobre este instante.
Falam conosco
as portas que se fecharam,
os abandonos sem despedida,
as frases que permaneceram
depois que todos partiram.
Por isso, às vezes,
uma palavra tão pequena
faz transbordar
uma vida inteira.
Talvez comunicar
seja aprender a atravessar
essa distância invisível
sem invadir as margens,
sem afundar o barco,
sem transformar o encontro
em naufrágio.
É preciso escolher
o momento da travessia,
diminuir a força dos remos,
ouvir o rumor das águas
antes de seguir.
Nem todo rio
deseja ser vencido.
Alguns pedem apenas
que duas vozes
se reconheçam de longe
e construam, juntas,
uma ponte.
