Que o coração permaneça aberto,
não por desconhecer as feridas,
mas por ter aprendido
que nenhuma dor precisa
ser transformada em morada.
Que ainda reconheça o amor
quando ele chegar sem anúncio:
na presença que não invade,
na palavra que acalma,
no silêncio que sabe ficar.
Que o receba sem medo,
sem procurar despedidas
em cada novo encontro,
sem pedir ao amanhã
garantias que ele não pode oferecer.
E que também o compartilhe
nas formas mais simples:
em um gesto sem testemunhas,
na escuta sem pressa,
no cuidado que não cobra retorno,
na delicadeza de não aumentar
o peso que alguém já carrega.
Porque o amor nem sempre chega
como uma grande revelação.
Às vezes,
é apenas uma fresta de luz
atravessando o dia
e lembrando ao coração
que ainda existe beleza
disposta a entrar.
E talvez viver seja isso:
não permitir que as ausências
fechem todas as janelas,
nem que as antigas tempestades
decidam para sempre
a direção dos afetos.
Manter o coração aberto
é continuar acreditando,
com doçura e coragem,
que aquilo que se oferece ao mundo
também encontra caminhos
para regressar.
