Há quem escute
apenas enquanto prepara
a próxima resposta.
Espera uma pausa,
uma pequena abertura,
um instante de silêncio
para devolver conselhos,
comparações
ou histórias sobre si.
Mas escutar verdadeiramente
é outra forma de presença.
É permanecer
quando não existe solução imediata.
É permitir que alguém
termine uma frase difícil
sem apressar a conclusão,
sem diminuir a dor,
sem transformar o sentimento
em exagero ou fraqueza.
Nem toda tristeza
precisa ser corrigida.
Nem todo medo
precisa receber coragem
antes de ser compreendido.
Às vezes,
o que uma pessoa procura
não é alguém que lhe mostre o caminho,
mas alguém que caminhe ao lado
enquanto tudo ainda parece confuso.
A escuta oferece esse lugar.
Um espaço onde a voz
não precisa competir,
onde as lágrimas
não exigem justificativas
e onde o silêncio
também pode fazer parte
da conversa.
Escutar é abandonar,
por alguns instantes,
a necessidade de ter razão.
É entrar no mundo do outro
sem reorganizá-lo
segundo as próprias medidas.
É perguntar com delicadeza,
acolher sem invadir
e compreender que algumas dores
não cabem nas experiências
que já conhecemos.
Talvez por isso
a escuta seja tão rara.
Ela exige presença,
humildade
e a coragem de permanecer
diante daquilo
que não podemos resolver.
Mas quando alguém encontra
um lugar seguro para falar,
algo dentro começa a respirar.
Porque há palavras
que não pedem respostas.
Pedem apenas
que alguém não vá embora
antes que elas consigam existir.
