Pouco a pouco,
a vida ensina
que nem toda porta merece entrada,
nem toda voz merece resposta,
nem toda presença sabe cuidar
do que encontra.
Há um tempo
em que a alma se oferece demais,
abre janelas para qualquer vento,
explica suas dores,
entrega seus segredos,
confunde presença com abrigo.
Até que um dia,
sem fazer barulho,
ela entende.
Nem toda aproximação é carinho.
Nem toda curiosidade é afeto.
Nem todo sorriso traz paz.
E então começa
a bonita coragem
de recolher o coração.
Não por frieza,
mas por cuidado.
Não por orgulho,
mas por amor-próprio.
Não por medo do mundo,
mas por respeito
ao que ainda precisa florescer por dentro.
Ser reservado
também pode ser ternura.
Ser seletivo
também pode ser cura.
Porque há partes da alma
que não devem ser entregues
a mãos apressadas,
olhares rasos
ou presenças que chegam
sem saber permanecer.
Com o tempo,
a vida não endurece.
Ela apenas ensina
a escolher melhor
onde descansar.
