Transformações

Quando o corpo assusta a alma

Tem dias em que a doença não dói só no corpo.
Dói na cabeça também.

Dói nas perguntas que chegam sem pedir licença.
No medo de não saber o que vem depois.
Na espera por uma resposta que parece demorar mais
quando a gente está cansada.

A gente tenta seguir normal.
Responde mensagens.
Faz comida.
Arruma alguma coisa pela casa.
Sorri quando dá.

Mas por dentro existe um lugar quieto
perguntando se vai ficar tudo bem.

E ninguém vê isso.

Ninguém vê o peso de esperar um exame,
de sentir uma dor diferente,
de tentar não imaginar o pior
enquanto procura coragem para continuar o dia.

Há uma solidão muito grande
em não entender o próprio corpo.

Mas também há uma força pequena,
quase escondida,
que aparece nas horas mais simples.

No banho tomado com calma.
Na xícara quente entre as mãos.
Na respiração funda antes de dormir.
Na esperança baixinha dizendo:
só passa por hoje.

E talvez seja assim que a gente atravessa certas fases.

Não com grandes certezas.
Mas com pequenos gestos de cuidado.

Um dia de cada vez.
Uma resposta de cada vez.
Um pouco de fé
quando a coragem ainda não voltou inteira.

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