Transformações

As luzes acesas dentro da noite

Há noites que chegam devagar,
sem fazer ruído,
mas ocupam tudo.

Sentam-se nos cantos da casa,
pesam sobre os ombros,
apagam a pressa,
calam as respostas
e fazem a alma caminhar mais devagar.

Há noites em que o mundo continua lá fora,
mas por dentro tudo parece suspenso.

O relógio anda,
as pessoas passam,
as luzes da cidade permanecem acesas,
mas alguma coisa dentro de nós
parece procurar um caminho no escuro.

Nem sempre a noite é feita apenas de ausência.

Às vezes ela é feita de cansaço.
De espera.
De saudade.
De perguntas que ninguém respondeu.
De palavras que ficaram presas na garganta.
De sonhos que precisaram ser adiados.

E ainda assim,
mesmo no meio da escuridão,
há sempre alguma luz que resiste.

Pode ser pequena.

Uma lembrança que aquece.
Uma mensagem inesperada.
Uma voz amiga.
Um gesto simples.
Uma oração feita sem muitas palavras.
Um silêncio que, de repente,
já não parece tão vazio.

As grandes luzes costumam chamar atenção,
mas são as pequenas que salvam.

Aquelas que quase passam despercebidas.
Aquelas que não iluminam tudo,
mas mostram apenas o próximo passo.

E às vezes é disso que a vida precisa:
não de todas as respostas,
não de todo o caminho revelado,
mas apenas de um pouco de claridade
para continuar.

Porque a noite também ensina.

Ensina que nem toda escuridão é abandono.
Que nem todo silêncio é fim.
Que nem toda demora significa esquecimento.

Há coisas sendo preparadas
onde os olhos ainda não alcançam.
Há recomeços nascendo em segredo.
Há forças voltando aos poucos,
como quem acende uma vela
depois de muito vento.

E talvez seja assim que se atravessam
as noites mais difíceis:

não vencendo tudo de uma vez,
mas protegendo a pequena luz
que ainda resta.

A luz da fé.
Da memória.
Da esperança.
Da coragem silenciosa
de permanecer.

Pois mesmo quando a noite parece longa demais,
alguma coisa continua acesa.

Dentro da casa.
Dentro do peito.
Dentro do tempo.

E um dia,
sem aviso,
a manhã encontra essas luzes
ainda brilhando.

Como se dissessem, baixinho,
que nada foi em vão.

Que a noite não venceu.

E que havia vida ali,
mesmo quando tudo parecia escuro.

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