Coleções de Leitura | Sinfonia de Palavras 2

Corpus de memórias

Nem todos os altares
são feitos de pedra.

Há os que se erguem
na mesa compartilhada,
no pão repartido sem alarde,
na água oferecida a quem chega cansado.

Há procissões silenciosas
que atravessam os anos:
mãos que cuidam,
palavras que acolhem,
presenças que permanecem
quando o mundo se apressa em partir.

O que é sagrado, às vezes,
não veste ouro,
não toca sinos,
não ocupa praças.

Mora no gesto simples
de quem divide o pouco,
na escuta paciente,
na bondade que não espera aplausos.

Cada pessoa carrega
um pequeno templo invisível,
feito de lembranças,
afetos,
perdas
e recomeços.

E talvez seja isso
que os dias tentem ensinar:

que a vida floresce melhor
quando aquilo que somos
se transforma em abrigo
para alguém.

Porque há corpos que passam,
e há presenças que ficam.

Como o perfume do pão recém-feito,
como a sombra fresca de uma árvore,
como uma palavra boa
guardada por muitos anos.

E são essas presenças,
mais do que os calendários,
que atravessam o tempo
e continuam caminhando
entre nós.

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