Nem todos os altares
são feitos de pedra.
Há os que se erguem
na mesa compartilhada,
no pão repartido sem alarde,
na água oferecida a quem chega cansado.
Há procissões silenciosas
que atravessam os anos:
mãos que cuidam,
palavras que acolhem,
presenças que permanecem
quando o mundo se apressa em partir.
O que é sagrado, às vezes,
não veste ouro,
não toca sinos,
não ocupa praças.
Mora no gesto simples
de quem divide o pouco,
na escuta paciente,
na bondade que não espera aplausos.
Cada pessoa carrega
um pequeno templo invisível,
feito de lembranças,
afetos,
perdas
e recomeços.
E talvez seja isso
que os dias tentem ensinar:
que a vida floresce melhor
quando aquilo que somos
se transforma em abrigo
para alguém.
Porque há corpos que passam,
e há presenças que ficam.
Como o perfume do pão recém-feito,
como a sombra fresca de uma árvore,
como uma palavra boa
guardada por muitos anos.
E são essas presenças,
mais do que os calendários,
que atravessam o tempo
e continuam caminhando
entre nós.
