Coleções de Leitura | Sinfonia de Palavras 2

O inventário da alma

Há pessoas que passam pela vida
contando moedas,
medindo conquistas,
empilhando objetos
como quem tenta deter o tempo.

Guardam chaves de portas esquecidas,
roupas que já não vestem,
retratos de rostos distantes,
e acreditam que possuir
é uma forma de permanecer.

Mas há outras.

Há aquelas que colecionam amanheceres,
estradas percorridas,
abraços demorados,
despedidas que ensinaram,
e encontros que mudaram destinos.

Guardam no coração
a voz de quem partiu,
o riso de uma criança,
o cheiro da chuva na infância,
o nome de lugares
que nunca deixaram de existir dentro delas.

Não carregam cofres.
Carregam memórias.

Não exibem riquezas.
Exibem cicatrizes,
aprendizados,
e a serenidade de quem viveu.

Quando o tempo passa,
as coisas ficam para trás.
Mudam de dono,
perdem valor,
desaparecem.

As histórias, não.

Elas continuam viajando
de boca em boca,
de lembrança em lembrança,
como pequenas luzes
atravessando gerações.

E talvez, no fim,
a verdadeira fortuna
não seja aquilo que se possui,
mas aquilo que se pode contar
sem precisar abrir as mãos.

Porque há pessoas que passam pela vida
acumulando coisas.

E há aquelas que,
silenciosamente,
acumulam histórias
e se tornam elas próprias
uma história digna de ser lembrada.

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