Coleções de Leitura | Sinfonia de Palavras 2

O perdão que demorou a chegar

Durante muito tempo,

o coração carregou pedras.

Não por maldade.

Não por desejo de vingança.

Mas porque algumas feridas
não sabem partir
quando lhes pedimos.

Permanecem.

Sentam-se ao nosso lado.

Acompanham os dias.

Recordam palavras
que não deveriam ter sido ditas.

Ausências
que não deveriam ter acontecido.

Promessas
que ficaram pelo caminho.

E assim os anos passam.

Enquanto a vida segue adiante,

uma parte da alma
continua parada
diante de uma porta antiga.

Esperando respostas.

Esperando justiça.

Esperando algo
que talvez nunca chegue.

O perdão não veio depressa.

Não nasceu de uma manhã iluminada.

Nem de uma frase inspiradora.

Chegou devagar.

Como chegam as estações.

Como a neve que derrete
sem fazer ruído.

Primeiro veio o cansaço.

O cansaço de carregar
o peso daquilo que já não podia ser mudado.

Depois veio a compreensão.

Não a compreensão dos fatos.

Mas da fragilidade humana.

Porque todos erram.

Todos falham.

Todos ferem alguém
em algum momento da travessia.

Até aqueles
que nunca desejaram ferir.

Então algo mudou.

A dor continuava existindo.

Mas já não comandava os dias.

A lembrança permanecia.

Mas já não dominava o coração.

Foi nesse instante

que o perdão começou.

Não como esquecimento.

Não como desculpa.

Não como negação da ferida.

Mas como liberdade.

A liberdade de deixar
que o passado permanecesse no passado.

A liberdade de não entregar
ao sofrimento
o controle do presente.

Muitas vezes acredita-se
que perdoar
é um presente oferecido ao outro.

Talvez não seja.

Talvez seja um presente
que oferecemos a nós mesmos.

Porque o ressentimento
mantém abertas portas
que deveriam descansar.

Mantém acesas dores
que já cumpriram seu papel.

O perdão que demorou a chegar

não trouxe de volta
o que foi perdido.

Não apagou cicatrizes.

Não mudou a história.

Mas trouxe algo precioso:

paz.

E quando finalmente chegou,

o coração compreendeu

que algumas libertações
não acontecem quando esquecemos.

Acontecem quando deixamos de carregar.

Quando soltamos.

Quando seguimos.

E descobrimos que a vida,

apesar de tudo,

ainda tem flores esperando
para nascer adiante.

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