Reflexões Sociais e Existenciais

O que ainda floresce

Há um momento
em que deixamos de perguntar
por que a vida tomou certos caminhos
e começamos a perguntar
o que ainda podemos fazer
com aquilo que restou.

Nem tudo precisa ser compreendido
para finalmente encontrar um lugar
dentro de nós.

Algumas lembranças
não desaparecem.
Apenas perdem, aos poucos,
o poder de nos levar para trás.

O passado permanece,
mas já não precisa
ser o endereço onde moramos.

Há coisas que doeram
porque foram importantes.
Há ausências
que ensinaram o tamanho
de certas presenças.

E há versões de nós
que precisaram morrer silenciosamente
para que outra pessoa pudesse nascer
no mesmo corpo.

Talvez amadurecer
seja isso:

olhar para a própria história
sem querer reescrevê-la,
mas também sem permitir
que ela escreva o resto.

O tempo continuará passando.
Não pede licença,
não retorna para buscar ninguém.

Por isso,
que o dia de hoje
não seja apenas mais uma página
virada sem ser lida.

Que haja presença
no café tomado devagar,
na conversa que merece ser ouvida,
no abraço que ainda podemos dar,
naquilo que ainda podemos começar.

Porque talvez a vida
não esteja no tempo que perdemos,
mas naquilo que escolhemos fazer
com o tempo que ainda pulsa
em nossas mãos.

E enquanto houver manhã,
há alguma coisa em nós
que ainda pode florescer.

Comentário também é uma forma de abraço: