Há corações
que aprendem cedo
a fechar as janelas.
Não por falta de amor,
mas por excesso de despedidas.
Depois de certas dores,
até a ternura
parece esconder algum perigo.
O elogio é recusado,
o cuidado é diminuído,
a presença sincera
recebe o nome de acaso.
E, enquanto se espera
por uma grande prova de amor,
pequenos afetos passam
sem encontrar lugar.
Uma amizade que permanece.
Uma escuta sem pressa.
Uma mão estendida
no momento exato.
Um olhar capaz de reconhecer
a força construída
durante os dias difíceis.
O amor nem sempre chega
como uma revelação.
Às vezes,
manifesta-se no cotidiano,
em gestos tão simples
que quase desaparecem
diante de quem aprendeu
a desconfiar da delicadeza.
Certas armaduras
impedem a dor de entrar,
mas também afastam
aquilo que poderia florescer.
Protegem tanto
que transformam abrigo
em solidão.
Até que alguma fresta
se abre por dentro
e o coração compreende:
receber afeto
não é demonstrar fraqueza.
Confiar
não significa ignorar os riscos.
E amar
não exige abandonar
a própria essência.
É possível acolher a vida
sem entregar a ela
todas as defesas.
É possível permanecer inteiro
e ainda assim
permitir aproximações.
Porque o amor verdadeiro
não chega para preencher
uma existência vazia.
Chega para encontrar
uma vida que já possui raízes,
história e luz,
e deseja apenas
compartilhar o caminho.
