Ninguém é apenas
aquilo que já viveu.
Nem as quedas,
nem as ausências,
nem os dias em que o silêncio
parecia ter a última palavra.
Há páginas
que doeram ao nascer,
capítulos interrompidos,
frases deixadas pela metade
porque, naquele momento,
continuar parecia impossível.
Há lembranças
escritas com lágrimas,
escolhas feitas no escuro
e caminhos percorridos
sem qualquer certeza
de onde poderiam levar.
Mas nenhuma página,
por mais difícil que tenha sido,
consegue contar
a história inteira.
O que passou
é parte do enredo,
não a definição
de quem o atravessou.
Existem finais
que pareciam definitivos,
portas que se fecharam
com o peso de uma despedida
e sonhos que perderam a forma
antes mesmo de florescer.
Ainda assim,
alguns finais
eram apenas pausas.
Espaços necessários
entre uma versão antiga
e tudo aquilo
que ainda precisava nascer.
A vida não entrega
a história completa.
Revela devagar,
linha por linha,
encontro por encontro,
coragem por coragem.
Às vezes,
uma página permanece vazia
por muito tempo.
Não porque nada exista,
mas porque certas palavras
precisam amadurecer
antes de encontrar lugar.
Há capítulos
que só começam
quando se aprende a partir.
Outros nascem
quando se decide ficar,
reconstruir,
perdoar a própria caminhada
e deixar de carregar culpas
que nunca deveriam
ter sido suas.
Também existem histórias
que mudam de direção
sem pedir licença.
O caminho imaginado
desaparece,
os planos se desfazem
e tudo parece perdido.
Mas perder o rumo
nem sempre significa
perder a si.
Às vezes,
é justamente no desvio
que se encontra
uma verdade esquecida,
uma força silenciosa
ou uma possibilidade
que o antigo caminho
jamais revelaria.
Nem tudo precisa
ser compreendido agora.
Alguns acontecimentos
só encontram sentido
muito depois,
quando vistos à distância,
sob uma luz mais serena.
E aquilo que parecia
apenas ferida
pode tornar-se aprendizado.
Aquilo que parecia
somente ausência
pode abrir espaço
para uma presença mais inteira.
Aquilo que parecia
o fim da esperança
pode ser o lugar
onde ela aprende
a nascer diferente.
Há muito mais
além das páginas conhecidas.
Conversas que ainda
não aconteceram.
Lugares que os pés
ainda não tocaram.
Afetos que chegarão
sem repetir antigas dores.
Sonhos que permanecem quietos,
esperando apenas
o momento certo
para despertar.
Por isso,
não se deve confundir
um capítulo difícil
com uma vida sem beleza.
Nem uma noite longa
com a ausência definitiva
do amanhecer.
O que aconteceu
deixou marcas,
mas as marcas também contam
que houve sobrevivência.
Que alguma coisa,
mesmo cansada,
continuou respirando.
Que, apesar de tudo,
a história não terminou.
Enquanto houver caminho,
haverá espaço
para mudar o sentido,
reescrever escolhas,
abandonar antigos papéis
e inventar novos começos.
Não é preciso
apagar o passado.
Basta não permitir
que ele escreva sozinho
todas as páginas seguintes.
Porque existir
é permanecer em construção.
É descobrir novas versões
sem precisar negar
quem se foi um dia.
É aceitar que algumas respostas
chegam tarde,
que certos sonhos mudam
e que recomeçar
também é uma forma
de honrar a própria história.
Ninguém precisa
conhecer o final
para continuar.
Basta confiar
na próxima linha,
no próximo gesto,
na pequena coragem
de virar a página.
Porque ainda há palavras
procurando um lugar.
Ainda há caminhos
esperando passos.
Ainda há vida
onde os olhos talvez
só consigam ver silêncio.
E enquanto existir
uma única possibilidade
de recomeço,
a história continuará
aberta,
inacabada,
viva,
ainda sendo escrita.

“encontro por encontro”,*
encontros e despedidas, há quem nunca olha para trás, sequer de soslaio, muito menos para as nuvens, encruzilhadas luminosas e escuras, trevos de seis folhas… é mesmo como escreveu o médico, diplomata e mestre da Academia Brasileira de Letras, João Guimarães Rosa (Grande Sertão: Veredas): “Viver é muito perigoso.”
Um abraço.
Ah, Darlan … seus comentários sempre fazem o poema continuar depois do ponto final. 😊 Obrigada por caminhar por essas palavras comigo. Um grande abraço! 🌷
Obrigado, Bia. Penso que a humanidade, ou Mãe Pressa, necessita urgente de mais perspicácia e leveza com a sua (às vezes fica brava, hehehe), uma leveza como a que o UAIMA recebe.
Aquele abraço.