A serenidade
não costuma bater à porta
nos dias de céu aberto.
Ela prefere
as manhãs nubladas,
quando ainda existe
um pouco de medo
escondido entre os pensamentos.
Chega sem fazer promessas.
Sem anunciar
que tudo ficará bem.
Apenas se aproxima
com a delicadeza
de quem conhece
o tempo das feridas.
Antes dela,
houve noites
que pareciam eternas.
Silêncios
que pesavam mais
do que qualquer palavra.
Perguntas
que nunca encontraram resposta.
E um coração
cansado
de procurar sentido
onde existia
apenas dor.
Mas o tempo,
esse jardineiro invisível,
continua trabalhando
mesmo quando ninguém percebe.
Enquanto a pressa
exige resultados,
ele semeia
raízes profundas.
Enquanto as lágrimas
escorrem,
ele prepara
novas estações.
Há um instante
em que a tempestade
ainda existe,
mas já não governa.
O vento continua.
A chuva insiste.
O céu permanece cinzento.
E, ainda assim,
alguma coisa
lá dentro
deixa de desmoronar.
Talvez seja isso
a verdadeira força.
Não a de vencer
todas as batalhas.
Mas a de descobrir
que nem toda guerra
merece permanecer
dentro da alma.
A serenidade
não transforma o passado.
Não desfaz
as despedidas.
Não devolve
o que partiu.
Não apaga
as cicatrizes.
Mas muda
o lugar
que elas ocupam.
Aquilo
que antes era peso
torna-se memória.
Aquilo
que parecia prisão
transforma-se
em caminho.
E, pouco a pouco,
a vida reaprende
a florescer.
Sem urgência.
Sem espetáculo.
Sem precisar
provar nada
a ninguém.
Porque há uma paz
que não nasce
quando tudo dá certo.
Ela nasce
quando o coração
descobre
que já não precisa
carregar sozinho
o peso
de tudo
o que não pode mudar.
Então,
quase sem perceber,
o amanhecer
deixa de ser
uma promessa distante.
E passa a morar,
silenciosamente,
dentro de quem escolheu
continuar.
É assim
que a serenidade chega.
Não como um destino.
Mas como uma companhia.
Discreta.
Constante.
E luminosa o bastante
para lembrar
que, mesmo depois
das noites mais longas,
a luz
nunca esquece
o caminho de volta.
