Há um instante silencioso
em que o encanto não faz barulho ao partir.
Ele apenas deixa de existir,
como um cristal que escapa das mãos
e encontra o chão.
Depois disso,
já não há remendo
que devolva ao vidro
a inocência de antes.
Pode até haver esforço,
boa vontade,
lembranças bonitas,
mas algumas rachaduras
não se tornam invisíveis.
Apenas ensinam
que certas histórias
terminam antes do último capítulo.
Então nasce um sentimento estranho:
não é só saudade de alguém,
é saudade da própria paz.
Saudade dos dias
em que o coração dormia tranquilo,
em que a leveza não precisava pedir licença,
em que a vida ainda não carregava
o peso da decepção.
Há despedidas
que acontecem muito antes da distância.
Elas começam
quando a esperança se cansa,
quando a admiração se perde,
quando permanecer
passa a doer mais
do que partir.
E, sem perceber,
o maior desejo já não é voltar.
É reencontrar
a pessoa que existia
antes que o conto de fadas
se desfizesse.
