Dor e Reconstrução, Entre Sentir e Curar, Recomeços e Transformações, Relacionamentos e Vínculos

Quando a felicidade parece distante

Houve um tempo
em que se acreditou.

Acreditou-se no encontro,
na promessa bonita,
na presença que ficaria,
no amor chegando
como quem acende uma casa
depois de muitas noites frias.

Houve um tempo
em que a felicidade parecia possível.

Não perfeita,
não sem feridas,
não sem dias difíceis,
mas possível.

Como uma janela aberta
depois de muitos quartos fechados.
Como um abraço
capaz de convencer a alma
de que nem toda história
termina em perda.

Mas a vida,
às vezes,
ensina com dureza.

Leva pessoas,
quebra planos,
desfaz certezas,
arranca do peito
aquilo que parecia raiz.

E depois de tantas partidas,
a esperança começa a andar devagar.

Já não corre para o amor.
Já não acredita fácil.
Já não se entrega inteira
às palavras bonitas
que prometem permanência.

Porque há perdas
que não levam apenas alguém embora.

Levam também
a coragem de esperar,
a leveza de confiar,
a inocência de acreditar
que o amor poderia ser abrigo
sem também se tornar ferida.

E então nasce essa dor silenciosa:
a sensação de que a felicidade no amor
existe em algum lugar,
mas não para todas as histórias.

Como se amar fosse uma casa iluminada
vista de longe,
mas nunca alcançada.

Como se o destino
tivesse reservado apenas o caminho,
nunca o descanso.

Mas talvez
essa não seja a verdade da vida.

Talvez seja apenas
a voz cansada das feridas
tentando proteger o que ainda resta.

Porque quem perdeu muito
não deixa de desejar felicidade.

Apenas aprende a desconfiar
do que um dia sonhou.

E mesmo quando a alma diz:
isso não é para mim,

ainda existe,
em algum lugar escondido,
uma pequena parte
que não desistiu completamente.

Uma parte que não pede promessas.
Não pede milagres.
Não pede pressa.

Pede apenas
um amor que não machuque,
uma presença que não pese,
uma paz que não precise ser implorada.

Mas talvez a felicidade
não esteja apenas no amor que vem de fora.

Talvez ela comece
no lugar mais silencioso de todos:
dentro.

Antes de ser encontro,
o amor precisa ser morada.

Antes de ser escolha de alguém,
precisa ser presença em si.

Antes de ser abraço recebido,
precisa ser abrigo construído
com as próprias mãos cansadas.

Porque talvez a alma
tenha procurado no outro
a confirmação de que era digna de amor,

quando, na verdade,
o amor sempre esteve ali,
mesmo ferido,
mesmo esquecido,
mesmo coberto pelos escombros
de tantas perdas.

E quando isso se revela,
a felicidade já não precisa chegar
como salvação.

Ela pode chegar pequena,
simples,
sem espetáculo.

Pode chegar como paz.
Como respiração.
Como um dia sem medo.
Como a certeza tranquila
de que nenhuma ausência
tem o poder de apagar
aquilo que continua vivo por dentro.

Talvez o amor mais necessário
não seja aquele que promete ficar.

Talvez seja aquele
que ensina a alma
a não se abandonar
quando alguém parte.

E talvez,
um dia,
se compreenda
que não se nasceu para viver sem amor.

Apenas foi preciso atravessar a dor
até aprender
a não chamar de destino
aquilo que foi apenas ferida.

E a não entregar ao outro
a chave da própria luz,

porque o amor,
antes de morar em alguém,
precisa encontrar abrigo
em nós mesmos.

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