Às vezes,
quem foi embora
não volta por amor.
Volta pelo costume,
pela falta do controle,
pelo silêncio que incomoda,
pela porta que antes estava sempre aberta.
Volta quando percebe
que já não ocupa
o mesmo lugar dentro de alguém.
Volta quando a ausência
deixa de ser espera
e começa a ser liberdade.
Há pessoas que retornam
não porque mudaram,
mas porque sentiram falta
do que recebiam.
Sentem falta da atenção,
do cuidado,
da presença disponível,
da alma que acolhia
mesmo quando também sangrava.
E então aparecem
como quem sente saudade,
mas às vezes é apenas medo
de perder definitivamente
aquilo que nunca souberam cuidar.
O passado sabe bater bonito.
Vem com palavras doces,
memórias escolhidas,
promessas vestidas de recomeço.
Mas nem toda volta
é reparação.
Nem todo arrependimento
carrega transformação.
Nem toda saudade
merece passagem de volta.
Porque quem precisou se reconstruir
depois de uma partida
aprende, com dor e lucidez,
que não basta alguém voltar.
É preciso saber
de onde vem,
com que intenção chega,
e se traz nas mãos
cuidado verdadeiro
ou apenas a velha vontade
de ocupar novamente
um lugar que já não lhe pertence.
Há retornos que curam.
Há retornos que testam.
Há retornos que só aparecem
para descobrir
se a ferida ainda responde.
E quando a alma amadurece,
ela entende:
nem toda porta batida
precisa ser aberta.
Às vezes,
o maior sinal de amor-próprio
é olhar para o passado com calma,
agradecer o que ensinou,
e não permitir
que ele volte a morar
onde finalmente existe paz.
