Autoconhecimento e Verdade, Entre Sentir e Curar

Quando a alma se abandona devagar

Há perdas que não começam
quando alguém parte.

Começam antes,
num lugar mais silencioso,
quando a pessoa deixa de se escutar
para caber em espaços
que já não a acolhem.

Começam quando o coração
aprende a pedir pouco,
a desejar baixo,
a aceitar frio
como se fosse apenas uma estação difícil.

E sem perceber,
a alma vai se afastando de si.

Primeiro, deixa passar uma palavra dura.
Depois, engole uma tristeza.
Depois, chama de costume
aquilo que já doía há muito tempo.

Há um tipo de abandono
que não vem de fora.

Nasce quando se insiste
em permanecer onde a própria luz
precisa diminuir
para não incomodar.

Nasce quando a paz vira negociação.
Quando o sorriso vira esforço.
Quando a presença no mundo
começa a depender
da aprovação de quem não sabe cuidar.

Mas chega um momento
em que alguma coisa desperta.

Não como tempestade.
Não como grito.
Às vezes, apenas como cansaço.

Um cansaço lúcido,
profundo,
quase sagrado.

Aquele instante em que a alma pergunta,
com voz pequena,
mas verdadeira:

e eu?

E essa pergunta
pode ser o começo da volta.

Porque ninguém retorna para si
de uma vez só.

Volta aos poucos.
Num limite reconhecido.
Num silêncio respeitado.
Num não que treme,
mas protege.

Volta quando entende
que afeto nenhum
deveria exigir a própria ausência.

Que permanecer inteiro
também é uma forma de amor.

E que há despedidas
que não tiram nada da alma.

Apenas devolvem
o lugar que ela nunca deveria
ter abandonado.

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