Entre Sentir e Curar, Família e Pertencimento, Reflexões Sociais e Existenciais

As casas que ficaram dentro da alma

Há saudades que não têm nome exato.

Chegam pelo cheiro de uma rua,
pela lembrança de uma casa,
por uma música perdida no tempo,
por uma mesa cheia,
por uma voz que já não se escuta
do mesmo jeito.

Não é apenas falta de pessoas.
É falta de um tempo inteiro.

De uma rotina que parecia simples,
mas hoje brilha na memória
como se fosse feita de sol.

Há lugares que continuam morando
dentro da alma,
mesmo depois que o corpo partiu.

Cantos de infância,
portas conhecidas,
janelas abertas,
datas festivas,
risos de família,
perfumes que atravessam os anos
sem pedir licença.

E às vezes, sem aviso,
uma lembrança acende tudo.

Por um instante,
a vida de antes volta a respirar.

A pessoa se vê ali novamente,
em outro tempo,
com outro rosto,
outros sonhos,
outra leveza.

E dói perceber
que algumas versões da vida
não podem ser visitadas
com os pés.

Só com o coração.

Mas talvez a saudade
não venha apenas para ferir.

Talvez venha para provar
que houve beleza.

Que houve casa.
Que houve afeto.
Que houve dias
em que a alma se sentiu pertencendo
a algum lugar do mundo.

E mesmo que o tempo tenha mudado tudo,
mesmo que pessoas tenham partido,
mesmo que caminhos tenham se fechado,
nada do que foi amado de verdade
desaparece por completo.

Fica em nós.

Como cheiro guardado na memória.
Como fotografia sem papel.
Como festa acesa por dentro.
Como uma vida antiga
que ainda conversa em silêncio
com a vida de agora.

Porque sentir saudade
também é reconhecer
que existiram dias bonitos.

E que, em algum lugar secreto da alma,
eles continuam voltando
para lembrar
que fomos felizes ali.

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