Às vezes, dá vontade de saber
o que passa por dentro de alguém.
Não por curiosidade simples,
mas por cansaço de imaginar demais.
Seria tão fácil, talvez,
se os pensamentos tivessem janelas.
Se a alma do outro deixasse escapar
alguma luz,
alguma frase,
alguma verdade escondida
entre o silêncio e o olhar.
Há quem deseje esse dom
como quem deseja descanso.
Entrar por um instante
no mundo secreto de outra pessoa
e descobrir se havia carinho,
distância,
medo,
mentira,
saudade,
ou apenas confusão.
Porque o silêncio inventa histórias.
A dúvida aumenta vozes.
A mente constrói respostas
onde o outro deixou apenas espaços.
Mas talvez existam portas
que a vida mantém fechadas
por misericórdia.
Nem todo pensamento nasce pronto.
Nem toda dúvida do outro é sentença.
Nem toda ausência de palavra
significa ausência de sentimento.
Há pensamentos que passam
como nuvens sem destino.
Há medos que não pertencem a ninguém.
Há verdades que ainda estão aprendendo
a existir por inteiro.
Saber tudo
talvez não trouxesse paz.
Talvez trouxesse peso.
Talvez ferisse mais.
Talvez tirasse da vida
a delicadeza de confiar
sem possuir cada resposta.
Porque nenhum coração
foi feito para ser vigiado por dentro.
E talvez amar, conviver, permanecer
ou simplesmente seguir em paz
também seja aceitar
que o outro tem um território invisível
onde nem sempre se pode entrar.
No fim, o verdadeiro superpoder
talvez não seja ler pensamentos.
Talvez seja aprender
a não se perder
dentro daquilo
que nunca foi dito.
