Para as Noites Difíceis

Não assine contratos com a dor da madrugada

Não assine contratos
com a dor da madrugada.

A noite,
quando pesa,
sabe parecer definitiva.

Ela aumenta pensamentos,
escurece respostas,
aproxima medos
que durante o dia
talvez nem tivessem
tanto tamanho.

Há conclusões
que nascem do cansaço,

não da verdade.

Há certezas
que aparecem
quando a alma está exausta,

mas desaparecem
quando a luz toca
a janela.

Na madrugada,
a mente pode exagerar perdas,
inventar fins,
reabrir feridas,
transformar silêncio
em abandono,

e pausa
em fracasso.

Mas nem tudo
que parece claro no escuro
deve ser levado
para o amanhecer.

Há pensamentos
que precisam apenas
de descanso,

não de decisão.

Há dores
que pedem acolhimento,

não assinatura.

Há medos
que querem resposta imediata,

mas a vida
não precisa ser julgada
no horário em que a alma
está mais cansada.

Espere a manhã.

Espere o corpo respirar melhor.

Espere a mente sair
do quarto fechado
onde tudo parecia
sem saída.

Porque a madrugada
pode ser intensa,

mas não é tribunal.

Não entregue a ela
o poder de decidir
quem você é,

o que merece,

ou o que ainda
pode acontecer.

Algumas respostas
só chegam
quando o peito
deixa de lutar
contra a própria exaustão.

E talvez
a maior sabedoria
em certas noites

seja apenas dizer:

não vou decidir agora.

Não vou acreditar em tudo
que a dor me conta.

Não vou assinar
com mãos trêmulas

um contrato
que a luz da manhã
talvez nunca
teria escrito.

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