Há noites
em que o sono se aproxima,
mas não permanece.
Encosta de leve,
quase chega,
quase fica,
mas parte
antes que o corpo consiga descansar.
E então
o escuro se enche
de pensamentos.
Coisas pequenas
crescem sem pedir licença.
Uma palavra antiga.
Uma resposta ausente.
Uma preocupação escondida.
Um medo que parecia quieto
durante o dia.
Tudo volta
quando o mundo se cala.
A mente abre portas
que já estavam fechadas.
Revira lembranças,
antecipa dores,
inventa desfechos,
procura controle
onde só existe incerteza.
E o corpo, cansado,
permanece ali,
tentando dormir
dentro de uma vida
que ainda faz barulho.
A insônia, às vezes,
não é falta de sono.
É excesso de mundo
dentro da cabeça.
É o amanhã chegando cedo demais.
É o passado sentando à beira da cama.
É o medo confundindo cuidado
com vigilância.
Há madrugadas
em que pensar
parece uma forma de proteção.
Como se permanecer acordado
impedisse alguma queda.
Como se imaginar todos os caminhos
evitasse a dor.
Como se vigiar a vida
fosse o mesmo
que salvá-la.
Mas nem toda preocupação
é cuidado.
Nem todo pensamento
precisa ser seguido.
Nem todo medo
merece a noite inteira.
Há coisas
que pertencem ao dia.
Perguntas
que precisam de luz.
Dores
que pedem acolhimento,
não pressa.
Incertezas
que não se resolvem
só porque alguém
perdeu o sono.
Talvez descansar
também seja aprender
a devolver cada peso
ao seu tempo.
Dizer à mente,
com delicadeza:
eu escutei você,
mas agora
preciso repousar.
Dizer ao medo:
você pode existir,
mas não precisa
ocupar todos os cômodos.
Dizer ao amanhã:
chegue quando for hora,
não antes.
Porque o corpo
não foi feito
para carregar a vida inteira
durante a madrugada.
E a alma
não precisa provar força
permanecendo acordada.
Às vezes,
a maior coragem
é fechar os olhos
sem ter todas as respostas.
É permitir
que a noite seja noite,
mesmo difícil,
mesmo longa,
mesmo cheia de ecos.
É atravessar o escuro
sem transformá-lo
em sentença.
Até que, aos poucos,
alguma coisa dentro
desaperta.
O pensamento perde volume.
O peito encontra espaço.
A respiração volta
para perto de si.
E talvez o sono venha.
Não como solução.
Não como milagre.
Mas como uma pequena trégua
entre o peso
e o amanhecer.
Porque nem tudo
precisa ser resolvido
antes de descansar.
Às vezes,
a vida só pede
que a gente pare
de lutar contra a noite
e aceite, por um instante,
ser cuidado pelo silêncio.
