Autoconhecimento e Verdade

A versão que ficou para trás

Sem perceber,
algo mudou.

Não foi de repente.
Não houve anúncio,
nem porta batendo,
nem céu se abrindo.

Foi aos poucos.

Uma dor aqui,
uma despedida ali,
um silêncio longo demais,
uma espera cansada
de não ser atendida.

E quando a vida tocou fundo,
alguma coisa por dentro
aprendeu a se recolher.

Não por frieza,
mas por cuidado.

Já não se caminha
com os mesmos olhos.
Já não se acredita
em qualquer promessa.
Já não se entrega a alma
a mãos distraídas.

O que antes parecia amor,
hoje talvez pareça ausência.
O que antes parecia destino,
hoje talvez pareça peso.
O que antes parecia fim,
hoje talvez pareça livramento.

E mesmo assim,
a ternura permanece.

Uma ternura mais quieta,
mais madura,
menos disposta
a se perder
para caber onde não há espaço.

A versão antiga
ainda mora na memória.

Ela foi necessária.

Foi ela que acreditou,
que tentou,
que insistiu,
que atravessou noites
sem saber se a manhã viria.

Mas agora,
alguma coisa sabe.

Nem toda porta fechada
é abandono.
Nem toda partida
é derrota.
Nem toda mudança
é perda.

Às vezes,
a vida apenas retira
o que já não podia ficar.

E então,
sem fazer barulho,
nasce uma nova forma
de existir.

Não menos sensível.
Não menos inteira.
Apenas mais próxima
de si.

E talvez seja isso
amadurecer:

olhar para trás
com carinho,
agradecer à versão
que sustentou o caminho,
e seguir adiante
sem pedir desculpas
por já não caber
na mesma forma
de antes.

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