Há dias em que a vida caminha,
mas a mente dispara.
O corpo está aqui,
sentado à mesa,
atravessando a rua,
respondendo mensagens,
cumprindo tarefas simples.
Mas por dentro
tudo parece correr.
Um pensamento chama outro,
uma preocupação abre caminho para a próxima,
uma possibilidade pequena
cresce até ocupar a sala inteira.
E, de repente,
o que ainda nem aconteceu
já pesa como se fosse real.
A mente chega antes do tempo.
Chega no amanhã,
na próxima semana,
na resposta que ainda não veio,
na perda que talvez nunca aconteça,
no erro que talvez ninguém tenha visto.
Enquanto isso,
a vida continua no seu ritmo.
O café esfria.
A janela recebe a luz.
Alguém sorri no caminho.
O dia oferece pequenas pausas.
Mas a ansiedade
tem pressa demais
para perceber delicadezas.
Ela quer respostas antes das perguntas.
Quer segurança antes do passo.
Quer garantias
em um mundo feito de movimento.
E cansa.
Cansa tentar prever tudo.
Cansa vigiar cada detalhe.
Cansa carregar futuros
que ainda nem nasceram.
Há um tipo de exaustão
que não vem do que se fez,
mas de tudo o que se imaginou.
Por isso, às vezes,
é preciso chamar a mente de volta
com delicadeza.
Dizer a ela:
aqui ainda é hoje.
Ainda não chegamos lá.
Ainda não sabemos.
Ainda não precisamos resolver
todas as estradas
antes de dar o próximo passo.
Respirar
também é uma forma
de voltar para casa.
Sentir os pés no chão,
a água nas mãos,
o ar entrando devagar,
o instante existindo
sem pedir permissão.
Porque a vida não pede
que a gente chegue antes.
Ela pede apenas
que, quando possível,
a gente esteja presente.
E talvez a paz comece assim:
não quando a mente para completamente,
mas quando aprende
a caminhar um pouco mais perto
do ritmo da vida.
