Há noites em que o corpo se deita,
mas a alma permanece em pé.
A casa silencia,
as luzes se apagam,
o mundo parece finalmente descansar,
mas por dentro
alguma coisa continua acesa.
Não é apenas insônia.
É pensamento procurando saída,
é lembrança andando pelos corredores,
é medo abrindo gavetas antigas,
é cansaço sem conseguir dormir.
Nessas noites,
o travesseiro não acolhe,
a cama não repousa,
o escuro não protege.
Tudo parece maior
quando ninguém vê.
As dores ganham voz,
as ausências ocupam espaço,
as perguntas voltam
com passos leves
e insistentes.
E a alma, cansada,
não sabe onde pousar.
Há noites em que a madrugada
parece comprida demais,
como se cada minuto
tivesse peso próprio.
A gente fecha os olhos,
mas por dentro
continua atravessando estradas.
Estradas de ontem,
de amanhã,
de tudo o que aconteceu,
de tudo o que ainda assusta.
Mas mesmo nas noites difíceis,
há uma delicadeza escondida:
a de permanecer.
Respirar mais uma vez.
Virar o rosto no travesseiro.
Esperar o escuro passar
sem precisar vencê-lo.
Porque nem toda noite
vem para ser entendida.
Algumas vêm apenas
para serem atravessadas
com o pouco de força
que ainda resta.
E, quando o sono não encontra a alma,
talvez a alma esteja apenas
tentando encontrar
um lugar seguro dentro de si.
Até que, devagar,
quase sem aviso,
a manhã chega.
Não resolve tudo.
Não apaga as dores.
Não responde todas as perguntas.
Mas abre uma fresta.
E às vezes
uma fresta de luz
já é o bastante
para lembrar
que nenhuma noite difícil
dura para sempre.
