Coleções de Leitura | Sinfonia de Palavras 2

O amor depois de certa idade

Dizem que o amor depois de certa idade
chega mais devagar.

Já não derruba portas,
não faz promessas impossíveis,
não acredita em eternidades
apenas porque alguém as pronunciou.

Ele chega com os cabelos marcados pelo tempo,
com algumas cicatrizes escondidas,
com histórias que nem sempre cabem
numa única conversa.

Já conheceu despedidas.
Já enterrou ilusões.
Já chorou por quem ficou
e por quem partiu.

Talvez por isso
aprenda a reconhecer
o que é verdadeiro.

Não procura perfeição.

Procura paz.

Procura alguém
que compreenda os silêncios,
que respeite as ausências,
que saiba que há dias
em que a alma se recolhe
como quem fecha uma janela
antes da chuva.

O amor depois de certa idade
não tem pressa de impressionar.

Tem vontade de permanecer.

Descobre que a beleza
não mora na juventude dos rostos,
mas na gentileza dos gestos.

Num café preparado sem pedir.
Numa mensagem inesperada.
Numa mão estendida
quando a vida pesa.

É um amor que já não deseja possuir.

Deseja compartilhar.

Compartilhar os medos,
as alegrias,
as memórias,
e até as marcas
que o tempo desenhou sem pedir licença.

Porque depois de certa idade
o amor deixa de ser um incêndio.

E se transforma em lareira.

Não queime menos.

Apenas aprendeu
a aquecer sem destruir.

E talvez seja justamente por isso
que se torne tão raro
e tão bonito:

porque nasce da escolha,
e não da necessidade.

Porque já viu muito da vida,
e ainda assim
continua acreditando
que vale a pena abrir a porta
quando o coração bate.

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