Às vezes escrevemos sem pensar muito.
Entre uma tarefa e outra.
No intervalo do trabalho.
Enquanto o café esfria sobre a mesa.
Ou num fim de noite em que o coração está cheio demais para guardar tudo em silêncio.
Escrevemos porque sentimos.
E depois seguimos a vida.
Lavamos a louça.
Pegamos o ônibus.
Respondemos mensagens.
Cumprimos horários.
Enfrentamos dias bons e dias difíceis.
Sem imaginar que, do outro lado da tela,
alguém encontrou aquelas palavras.
Talvez uma mulher cansada,
depois de um dia longo.
Talvez um homem tentando entender uma saudade.
Talvez alguém que se sentia sozinho
até perceber que outra pessoa,
em algum lugar do mundo,
já havia sentido algo parecido.
Nunca sabemos.
Não sabemos qual frase fará alguém sorrir.
Qual verso será lido duas vezes.
Qual texto será guardado para voltar a ele nos dias mais difíceis.
Escrevemos e soltamos as palavras no mundo,
como quem lança pequenas garrafas ao mar.
A maioria nunca retorna.
Mas algumas chegam exatamente onde precisavam chegar.
E então acontece algo bonito:
descobrimos que aquilo que escrevemos para aliviar o próprio coração
acabou fazendo companhia ao coração de outra pessoa.
Talvez seja esse o destino das palavras.
Encontrar quem precisava delas,
mesmo quando nós jamais saberemos quem foi.
