Havia um jardim.
Pelo menos assim parecia.
Um coração regava flores,
plantava esperanças,
construía caminhos
e imaginava primaveras.
Do outro lado,
havia apenas um campo vazio.
Enquanto um contava estrelas,
o outro observava o céu
sem procurar constelações.
Enquanto um escrevia futuros,
o outro lia apenas o presente.
Não houve mentira.
Nem sempre.
Às vezes, a verdade
estava ali desde o início,
escondida não por maldade,
mas pelo desejo de acreditar.
O amor tem dessas coisas.
Quando nasce sozinho,
aprende a inventar pontes
sobre rios que nunca tiveram margem oposta.
Transforma gestos comuns
em promessas.
Silêncios
em mistérios.
Ausências
em esperas.
Até que chega o dia
em que a luz atravessa a névoa.
E aquilo que parecia uma história compartilhada
revela-se um monólogo.
Então vem o luto.
Não apenas pela pessoa,
mas pelos sonhos,
pelas viagens imaginadas,
pelas manhãs que nunca chegaram,
pela vida que existiu
somente dentro do coração de quem amou.
Mas o tempo,
esse paciente jardineiro,
leva embora as ilusões
e preserva as sementes.
Porque nenhum amor sincero
é desperdício.
Mesmo quando não encontra abrigo,
ensina.
Mesmo quando não floresce,
transforma.
E um dia,
sem mágoa,
sem cobrança,
sem amarras,
o coração compreende:
algumas pessoas
não entram em nossa vida
para permanecer.
Entram para mostrar
que a capacidade de amar
sempre foi nossa.
