Há silêncios
que não nascem da paz.
Habitam a mesma casa,
sentam-se à mesma mesa,
dividem os mesmos dias,
mas caminham por mundos
que já não se encontram.
As palavras continuam chegando,
como barcos sem destino,
tocam a superfície
e desaparecem.
Não há tempestade.
Não há despedida.
Apenas uma distância invisível
crescendo devagar
entre dois corações.
É estranho sentir saudade
de alguém que está ao alcance dos olhos.
Mais estranho ainda
é perceber que a ausência
pode morar na presença.
Os dias seguem seu curso.
Há compromissos,
rotinas,
conversas sobre o necessário.
Mas aquilo que um dia foi abrigo
transforma-se em corredor,
longo,
frio,
ecoando passos solitários.
Ninguém vê.
Por fora,
a vida parece inteira.
Por dentro,
há janelas fechadas
e quartos vazios.
Ainda assim,
em algum lugar,
permanece uma pequena luz.
Porque todo afeto verdadeiro
merece ser ouvido
antes de ser perdido.
E toda alma
merece ser encontrada,
mesmo que primeiro
precise reaprender
a encontrar a si mesma.
Pois a pior solidão
não é caminhar sozinho.
É deixar de ser visto
por quem um dia
prometeu permanecer.
