Coleções de Leitura | Sinfonia de Palavras 2

A casa vazia depois da partida

A casa continua ali.

As paredes permanecem de pé,
as janelas ainda recebem a luz da manhã,
os móveis ocupam os mesmos lugares.

À primeira vista,
nada parece diferente.

Mas quem conhece seus silêncios
sabe que algo mudou.

Há ausências
que transformam espaços inteiros.

Os corredores parecem mais longos.

As portas abrem-se
para cômodos que já não guardam
a mesma vida.

Os relógios continuam marcando as horas,
mas cada tic-tac
parece ecoar um pouco mais alto
entre as paredes.

Cada objeto conserva uma história.

Uma cadeira recorda conversas demoradas.

Uma fotografia preserva sorrisos
que o tempo não conseguiu apagar.

Uma xícara esquecida no armário
faz regressar tardes comuns
que só depois se revelam preciosas.

Por algum tempo,
a saudade percorre a casa
como um visitante que se recusa a partir.

Passa pelos quartos,
detém-se nos corredores,
senta-se em silêncio
nos lugares onde antes havia companhia.

E há dias em que basta um aroma,
uma canção distante
ou um feixe de luz atravessando a janela

para despertar lembranças adormecidas.

Mas o tempo,
esse paciente artesão,

não leva embora apenas as dores.

Também ensina.

Abre as janelas.

Move as cortinas.

Deixa o ar circular novamente.

Aos poucos,
novas manhãs encontram espaço para entrar.

A casa aprende a respirar
sem esquecer.

Aprende a acolher o presente
sem abandonar o passado.

Porque algumas partidas
não apagam o que foi vivido.

Transformam.

As vozes se calam,
os passos desaparecem,
os dias seguem adiante.

Mas há presenças
que continuam habitando os lugares
de outra forma.

Não nos olhos.

Não nas mãos.

Mas na memória,
nas histórias contadas,
nos afetos que resistem ao tempo.

E assim a casa permanece.

Guardando em suas paredes
o eco dos risos,
a sombra dos encontros
e a luz daqueles

que partiram dos cômodos,

mas jamais partiram completamente
do coração de quem ficou. 

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