Coleções de Leitura | Sinfonia de Palavras 2

O amor que não precisa ser posse

O amor que não precisa ser posse

é talvez o mais raro.

Porque nasce do afeto,
mas não da necessidade.

Da admiração,
mas não da prisão.

Do desejo de compartilhar a jornada,
mas não de controlar os passos.

Muitas vezes,
o mundo ensina o contrário.

Ensina que amar
é reter.

É vigiar.

É exigir garantias
contra a incerteza da vida.

Mas o amor verdadeiro
não cresce em gaiolas.

Nem floresce sob correntes.

Tudo aquilo que vive
precisa de espaço.

As árvores precisam do vento.

Os rios precisam do curso.

Os pássaros precisam do céu.

E os corações
precisam de liberdade.

Quem ama de verdade
compreende que ninguém pertence a ninguém.

Cada pessoa carrega dentro de si
um universo inteiro,

feito de sonhos,
medos,
lembranças
e caminhos próprios.

Nenhuma alma foi criada
para ser propriedade de outra.

Ainda assim,

é possível caminhar lado a lado.

Não como dono e pertença.

Mas como companheiros de travessia.

Há um amor que sufoca.

Que exige explicações para cada silêncio.

Que transforma cuidado em vigilância.

Que confunde medo de perder
com prova de afeto.

Esse amor vive cansado.

Porque tenta segurar o vento
entre as mãos.

Mas há outro amor.

Mais sereno.

Mais profundo.

Um amor que olha
e confia.

Que respeita o espaço do outro
sem sentir-se abandonado.

Que compreende que a fidelidade
não nasce do controle,

mas da escolha.

Pois aquilo que permanece
apenas porque está preso

não permanece de verdade.

Permanece por obrigação.

O amor que não precisa ser posse
não tem medo da liberdade.

Ao contrário.

Reconhece nela
a sua maior aliada.

Porque sabe que cada reencontro
vale mais quando poderia não acontecer.

Cada abraço
vale mais quando é oferecido.

Cada permanência
vale mais quando é escolhida.

Esse amor celebra os voos.

Aplaude os crescimentos.

Não se incomoda
quando o outro descobre novos horizontes.

Sente orgulho.

Sente alegria.

Porque compreende
que o brilho de quem se ama
não diminui a própria luz.

E quando chegam as tempestades,
como inevitavelmente chegam,

não recorre às correntes.

Recorre ao diálogo.

À paciência.

À compreensão.

Porque sabe que nenhuma relação
sobrevive por força.

Sobrevive por vontade.

Talvez por isso
os amores mais bonitos
não sejam aqueles que prometem posse eterna.

Mas aqueles que repetem,
dia após dia,
em silêncio ou em palavras:

“Você é livre.

E mesmo assim,

escolhe ficar.”

Há uma beleza imensa nisso.

Uma beleza que não grita.

Não exige.

Não domina.

Apenas existe.

Como um jardim
que floresce sem cercas altas.

Como um rio
que segue seu curso sem ser contido.

Como o mar,

que nunca prende os rios,

e ainda assim os recebe
sempre que chegam.

Porque o amor mais profundo
não é aquele que diz:

“Você é meu.”

É aquele que sussurra:

“Seja quem você é.

E saiba que meu afeto
não depende de te possuir,
mas da alegria de compartilhar,
por um tempo ou por uma vida,

o mesmo horizonte.”

Deixe um comentário