Há estações que chegam em silêncio.
Não anunciam a sua presença
com clarins ou celebrações,
mas pelo perfume discreto
dos frutos maduros
entre os ramos que resistiram ao inverno.
Antes delas,
houve ventos.
Houve céus carregados,
caminhos alagados,
e sementes adormecidas
sob a terra fria da espera.
Parecia que nada acontecia.
Mas, no segredo das raízes,
a vida cumpria o seu trabalho.
Toda tempestade acredita
ser eterna.
Toda noite imagina
que possuirá para sempre o horizonte.
Mas o tempo,
paciente artesão,
continua a sua obra
mesmo quando ninguém percebe.
E um dia chega a manhã.
Os campos douram.
As árvores inclinam os galhos
sob o peso dos frutos.
As flores devolvem ao ar
aquilo que guardaram em silêncio.
Não há vitória estrondosa.
Há gratidão.
Gratidão pela chuva e pelo sol,
pela espera e pelo encontro,
pelas perdas que abriram espaço
e pelos recomeços que floresceram.
Porque a colheita mais abundante
não é a dos campos.
É a que amadurece invisível
no coração dos dias.
E então compreende-se:
Nada foi em vão.
Nem o vento.
Nem a chuva.
Nem o tempo.
