Coleções de Leitura | Sinfonia de Palavras 2

Tempo de colheita

Há estações que chegam em silêncio.

Não anunciam a sua presença
com clarins ou celebrações,
mas pelo perfume discreto
dos frutos maduros
entre os ramos que resistiram ao inverno.

Antes delas,
houve ventos.

Houve céus carregados,
caminhos alagados,
e sementes adormecidas
sob a terra fria da espera.

Parecia que nada acontecia.

Mas, no segredo das raízes,
a vida cumpria o seu trabalho.

Toda tempestade acredita
ser eterna.

Toda noite imagina
que possuirá para sempre o horizonte.

Mas o tempo,
paciente artesão,
continua a sua obra
mesmo quando ninguém percebe.

E um dia chega a manhã.

Os campos douram.

As árvores inclinam os galhos
sob o peso dos frutos.

As flores devolvem ao ar
aquilo que guardaram em silêncio.

Não há vitória estrondosa.

Há gratidão.

Gratidão pela chuva e pelo sol,
pela espera e pelo encontro,
pelas perdas que abriram espaço
e pelos recomeços que floresceram.

Porque a colheita mais abundante
não é a dos campos.

É a que amadurece invisível
no coração dos dias.

E então compreende-se:

Nada foi em vão.

Nem o vento.

Nem a chuva.

Nem o tempo.

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