Coleções de Leitura | Sinfonia de Palavras 2

A Cabana

Havia uma cabana
no alto da montanha.

Não era grande.

Não possuía torres,
nem jardins raros,
nem janelas voltadas para a vaidade dos homens.

Era apenas uma cabana,
silenciosa entre as pedras,
habitada pelo vento
e pela passagem das estações.

Lá embaixo,
o mundo corria.

As cidades acendiam luzes,
erguiam ruídos,
inventavam urgências
para preencher os dias.

Mas a cabana permanecia.

Via o inverno cobrir os caminhos,
a primavera devolver as cores,
o verão amadurecer os campos,
e o outono ensinar
a beleza da despedida.

Quem chegava até ela
trazia perguntas.

Quem partia,
levava silêncio.

Talvez porque as montanhas
conheçam uma linguagem antiga,
que não se aprende nos livros
nem se traduz em palavras.

A linguagem do tempo.

A linguagem das nuvens
que passam sem pedir licença.

A linguagem das árvores
que crescem devagar
e ainda assim alcançam o céu.

À noite,
quando as estrelas desciam sobre o vale,
a pequena cabana parecia guardar
todos os segredos do mundo.

Mas nada dizia.

Pois há verdades
que não desejam ser explicadas.

Apenas contempladas.

E assim permaneceu,
entre a terra e o horizonte,
como um pensamento esquecido
na memória da montanha,

lembrando aos viajantes
que nem sempre é preciso ir mais longe.

Às vezes,
o que se procura a vida inteira
espera em silêncio
numa simples cabana
no alto de uma montanha.

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