Quem passa pela vida não permanece.
É visita de poucas horas
numa casa construída pelo tempo.
Abre janelas, fecha lembranças,
acende pequenas luzes
contra a vasta indiferença da noite.
Julga possuir caminhos,
mas os caminhos é que o conduzem.
Julga escolher os dias,
mas os dias já o esperavam.
A árvore cresce sem saber de si.
O mar avança sem conhecer destino.
Só o homem interroga o horizonte
e transforma o silêncio em pensamento.
Talvez por isso carregue saudades
até do que nunca viveu.
E, quando o último crepúsculo chegar,
partirá como partem as estações:
sem levar os campos,
sem levar os ventos,
apenas com a estranha certeza
de ter sido, por um instante,
o sonho de alguém chamado tempo.
