Coleções de Leitura | Sinfonia de Palavras 2

Os endereços da dor

Nem toda dor encontra o seu verdadeiro nome.

Às vezes, ela atravessa os anos,
carrega lembranças antigas,
mistura perdas, medos e ausências,
até já não saber de onde veio.

Então procura um rosto para habitar.

Procura alguém para culpar,
alguém que permaneça por perto,
alguém que não vá embora.

Mas a vida raramente cabe
em uma única explicação.

Há pessoas que carregam feridas profundas.
Há quem caminhe ao lado delas durante décadas.
Há quem ofereça o que pode
e, muitas vezes, o que não pode.

Nem sempre o amor recebe gratidão.
Nem sempre o cuidado é reconhecido.
Nem sempre os sacrifícios são vistos.

Ainda assim, existem mãos que continuam estendidas.

Mãos cansadas, por vezes.
Mãos que também conhecem as próprias dificuldades.
Mãos que aprendem a dividir o pouco,
a atravessar distâncias,
a recomeçar incontáveis vezes.

Porque amar alguém que sofre
nem sempre significa encontrar respostas.

Às vezes significa apenas permanecer.

Desejar que o outro encontre alívio.
Desejar que a dignidade sobreviva aos dias difíceis.
Desejar que a vida continue,
mesmo quando o caminho se torna pesado.

E talvez uma das maiores tristezas humanas
seja quando a dor se torna tão grande
que já não consegue enxergar o amor ao redor.

Mas o amor verdadeiro não precisa ser reconhecido
para ter existido.

Ele vive nos gestos silenciosos,
nas renúncias que ninguém vê,
nas ajudas que jamais serão contadas.

E mesmo quando encontra incompreensão,
continua sendo amor.

Não porque seja perfeito.

Mas porque escolhe cuidar
sem exigir recompensa.

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