Coleções de Leitura | Sinfonia de Palavras 2

Quando os dias ficam mais lentos

A velhice tem uma maneira silenciosa
de colocar a vida em perspectiva.

Chega um momento em que pouco importa
o cargo que se ocupou,
o dinheiro que se acumulou,
os títulos, os aplausos ou os bens guardados.

Diante da doença,
todos se tornam mais parecidos.

As mãos que antes construíam
passam a precisar de apoio.
Os passos diminuem.
O tempo desacelera.

E a solidão, por vezes,
senta-se ao lado da cama.

Há quem enfrente esses dias com doçura,
agradecendo cada gesto,
cada visita,
cada pequena ajuda recebida.

E há quem carregue amarguras antigas,
transformando a dor em impaciência,
o medo em dureza,
a fragilidade em revolta.

Mas a doença não escolhe caráter,
nem distribui sofrimento por merecimento.

Ela apenas revela, muitas vezes,
aquilo que a vida inteira foi guardado por dentro.

Alguns oferecem gentileza mesmo na dor.
Outros lutam contra o mundo até o último instante.

Ainda assim, existe algo que une todos os caminhos:

A necessidade de ser visto.

De não ser esquecido.

De saber que a própria existência
ainda importa para alguém.

Porque talvez o maior medo da velhice
não seja a doença.

Nem as limitações.

Nem mesmo o passar dos anos.

Talvez seja a sensação de atravessar os últimos dias
sem companhia,
sem escuta,
sem afeto.

Por isso, cada gesto de cuidado carrega um valor imenso.

Uma palavra.

Uma visita.

Uma conversa sem pressa.

Pequenas coisas que lembram
que a dignidade humana não envelhece.

E que, no fim, o que permanece na memória dos outros
raramente é aquilo que se possuía.

É a forma como se fez alguém sentir.

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