Há uma parte de cada pessoa
que nunca chega às fotografias,
não participa das conversas
nem recebe um nome diante dos outros.
É a parte que acorda
quando todas as testemunhas vão embora
e já não existe ninguém
a quem impressionar.
Ali, longe dos olhos,
a vida faz perguntas pequenas:
o que fazer com a verdade
quando seria mais fácil escondê-la?
Como falar de alguém ausente,
quando essa pessoa
não poderá se defender?
O que escolher
quando o gesto mais justo
não oferece vantagem alguma?
São perguntas quase invisíveis,
mas é nelas que a essência
abandona o discurso
e assume uma forma.
Porque não é difícil parecer generoso
quando a generosidade é vista,
nem demonstrar cuidado
quando o cuidado retorna em gratidão.
Difícil é conservar a delicadeza
diante de quem nada pode oferecer,
reconhecer um erro
que talvez jamais fosse descoberto,
devolver o que poderia ser guardado
sem que ninguém sentisse falta.
Existe uma verdade silenciosa
naquilo que se faz
sem anúncio,
sem recompensa,
sem a promessa de ser lembrado.
Não uma perfeição impossível,
mas uma coerência íntima:
a tentativa de não ferir
apenas porque seria fácil,
de não atravessar certos limites
apenas porque estão desprotegidos,
de continuar sendo inteiro
quando nenhuma aparência
precisa ser sustentada.
Talvez o caráter more justamente aí:
no espaço entre a oportunidade
e a escolha;
na pausa em que a consciência pergunta
quem se deseja ser
antes que o impulso responda.
O mundo conhece os gestos expostos,
as palavras escolhidas,
as versões cuidadosamente apresentadas.
Mas cada pessoa conhece, em silêncio,
as decisões que tomou
quando poderia ter escolhido qualquer coisa.
E talvez seja essa existência secreta,
sem moldura,
sem testemunhas,
sem aplausos,
a narrativa mais verdadeira
que alguém escreve sobre si.
