O amor não costuma partir de repente.
Antes,
ele desaprende o brilho.
A admiração,
que um dia vestia o outro de luz,
vai retirando, em silêncio,
cada uma das cores.
Chega um tempo
em que os olhos deixam de procurar virtudes
e começam a encontrar distâncias.
Não porque alguém mudou por completo,
mas porque os valores,
antes imaginados como caminhos comuns,
seguiram direções diferentes.
Há gestos que deixam de parecer pequenos.
Há palavras que pesam mais do que deveriam.
Há silêncios que revelam mais
do que qualquer discussão.
Então o coração compreende
que amar não é suficiente
quando já não existe respeito
capaz de proteger a delicadeza do vínculo.
E, sem perceber,
a saudade começa a ser substituída
por outro desejo.
Não o de voltar.
O de respirar.
De acordar sem tensão.
De caminhar sem medo.
De existir sem precisar justificar a própria alma.
É nesse instante
que a paz deixa de ser um detalhe
e passa a ser um destino.
O amor perde o encanto
não porque todo sentimento desapareceu,
mas porque a serenidade
se tornou mais preciosa
do que insistir em permanecer
onde já não havia abrigo.
Há despedidas
que não nascem da falta de amor.
Nascem da descoberta
de que nenhuma companhia
vale o preço
de perder a própria paz.
