Nem sempre a discórdia nasce
da falta de amor.
Às vezes, ela chega de fora,
disfarçada de opinião,
de interferência,
de presença insistente,
de palavras que não pertencem
ao silêncio de dois.
Há relacionamentos bons
que começam a estremecer
não porque deixaram de sentir,
mas porque permitiram
que muitas vozes entrassem
onde antes havia escuta.
O mundo, quando invade,
faz barulho nos cantos
mais sensíveis do vínculo.
Transforma detalhes em suspeitas,
cansaços em acusações,
diferenças em distâncias,
e pequenas falhas humanas
em guerras desnecessárias.
De repente, aquilo que era abrigo
parece campo de defesa.
O olhar muda,
a fala pesa,
o gesto perde ternura,
e o amor começa a responder
a feridas que talvez
nem tenham nascido dele.
Porque toda relação precisa
de portas abertas para a vida,
mas também de limites
para aquilo que desorganiza a paz.
Nem tudo merece entrar
no espaço sagrado
onde duas almas tentam
se encontrar com verdade.
Há influências que confundem,
companhias que atravessam,
palavras que semeiam dúvida,
energias que perturbam
o que estava tentando florescer.
E quando o exterior ocupa demais,
o interior começa a se perder.
Por isso, amar também é proteger.
Proteger a escuta,
a confiança,
a delicadeza,
o respeito,
o lar invisível
que existe entre duas pessoas.
Não se trata de fechar o mundo,
mas de saber reconhecer
o que chega para somar
e o que entra apenas
para dividir.
Porque um bom relacionamento
não sobrevive só de amor.
Ele precisa de cuidado,
de consciência,
de fronteiras,
e da coragem serena
de não entregar a própria paz
a qualquer perturbação.
Quando a discórdia vier de fora,
que o amor saiba perguntar:
isso é nosso
ou apenas entrou pela fresta?
