Há quem chegue inteiro,
com o coração aceso,
com presença demais,
com vontade demais,
com uma entrega quase impossível
de esconder.
Há almas que não sabem gostar
pela metade.
Quando se aproximam,
levam verdade,
levam intensidade,
levam cuidado,
levam uma luz que não sabe fingir
que sente pouco.
Mas a mesma alma
que sabe permanecer
também aprende a partir.
Porque o interesse pode ser grande,
mas a dignidade
precisa ser maior.
A vontade de ficar
pode gritar por dentro,
mas existe um limite silencioso
onde o amor-próprio
começa a falar mais alto.
E quando não há respeito,
quando não há reciprocidade,
quando a presença vira espera,
quando o afeto começa a doer,
a alma entende
que se afastar
também pode ser uma forma
de se proteger.
Nem todo afastamento
nasce da falta de sentimento.
Às vezes,
ele nasce do excesso de lucidez.
Porque quem sente muito
também precisa aprender
a não se perder
tentando caber
onde não encontra cuidado.
E um dia,
sem anúncio,
sem raiva,
sem necessidade de provar nada,
a alma recolhe sua luz,
fecha a porta devagar
e segue.
Ainda sentindo,
talvez.
Mas finalmente
se escolhendo.
