Relacionamentos e Vínculos

Quando o amor parece distante

Tem dias em que o amor
parece nos olhar de longe,
como se não reconhecesse
a casa que um dia encontrou
dentro do nosso peito.

E então nasce a dúvida.

Será amor sincero
cansado do próprio peso?

Será amor enganoso
vestido de promessa bonita?

Será apenas irritação,
um instante atravessado,
uma palavra mal pousada,
um silêncio que não soube
explicar o que sentia?

O amor, às vezes,
também se confunde.

Nem sempre ele chega claro,
com gesto inteiro,
voz tranquila,
presença segura.

Às vezes vem fechado,
impaciente,
cheio de arestas,
como se carregasse dores
que não contou a ninguém.

E quem ama do outro lado
tenta decifrar sinais,
medir ausências,
traduzir olhares,
entender mudanças
que talvez nem tenham
um nome certo.

Mas o que passa dentro do outro
é sempre um território secreto.

A gente toca apenas a superfície,
ouve metade da frase,
interpreta o tom,
preenche os vazios
com medo, memória
e desejo de certeza.

Só sabemos
o que pensamos saber.

O resto é mistério.

E talvez por isso
o amor também doa tanto:
porque nunca temos
acesso completo
ao coração de ninguém.

Há quem ame
e não saiba demonstrar.

Há quem esteja ferido
e pareça frio.

Há quem se afaste
não por falta de amor,
mas por não saber permanecer
sem ferir.

E há também quem diga amor
com a boca,
mas não consiga sustentá-lo
com presença.

Por isso,
quando o amor nos estranha,
é preciso respirar
antes de concluir.

Nem toda distância é fim.
Nem todo silêncio é mentira.
Nem toda irritação é desamor.

Mas também
nem toda promessa
é abrigo.

Há perguntas
que só o tempo responde.

Há verdades
que não se arrancam
de dentro do outro.

E há momentos
em que a alma entende
que amar não é adivinhar tudo,
nem se perder tentando provar
o que o outro sente.

Amar também é observar.

É perceber
se o cuidado volta,
se o respeito permanece,
se a presença encontra caminho
depois da tempestade.

Porque o amor sincero
pode ter dias difíceis,
mas não faz da dúvida
uma morada permanente.

Ele pode se calar,
mas não abandona para sempre
a delicadeza.

Ele pode se irritar,
mas não transforma
o coração do outro
em lugar de medo.

E quando nada é claro,
quando o peito não sabe
se espera, se pergunta
ou se parte,

talvez a resposta mais honesta
seja admitir:

o outro é mistério,
mas a dor que fica em nós
também merece ser ouvida.

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