Autoconhecimento e Verdade

As chaves esquecidas

Há portas dentro da gente
que passam anos fechadas.

Não por falta de caminho,
mas por esquecimento.

A vida vai colocando pressa,
obrigações,
vozes,
ruídos,
e a gente deixa no bolso antigo
as chaves de quem era.

Até que um dia,
sem anúncio,
uma música,
um cheiro,
uma frase qualquer
gira a maçaneta por dentro.

E ali está.

Um pedaço nosso
sentado no escuro,
não como quem cobra,
mas como quem espera
ser visto com ternura.

Talvez não seja preciso
voltar a ser quem fomos.

Talvez seja apenas necessário
abrir a porta,
olhar nos olhos
da parte esquecida
e dizer:

eu ainda lembro de você.

Porque há versões nossas
que não ficaram para trás
por fraqueza,
mas porque precisaram adormecer
enquanto a vida exigia coragem.

E quando despertam,
não vêm para nos prender
ao passado.

Vêm para devolver
aquilo que a pressa levou:
a leveza,
o espanto,
a coragem simples
de existir sem tanta defesa.

Então seguimos.

Não como antes,
nem completamente novos.

Seguimos com mais verdade,
levando no peito
as chaves reencontradas
e a delicadeza
de quem aprendeu
a abrir espaço
para si mesmo.

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