Família e Pertencimento

O aniversário que ficou no céu

Hoje seria o seu dia.

O calendário ainda sabe
aquilo que o mundo parece esquecer.

A data chega,
silenciosa,
como quem bate devagar
na porta da saudade.

E eu fico aqui,
com o coração cheio
de tudo que não deu tempo
de dizer de novo.

Há aniversários
que não acabam
quando alguém parte.

Eles apenas mudam de lugar.

Saem da mesa,
do abraço,
do bolo,
da voz chamando pelo nome,
e vão morar
num lugar mais fundo,
onde a memória acende velas
sem precisar de mãos.

Hoje, mãe,
eu não posso te abraçar.

Mas ainda posso te amar.

Ainda posso te encontrar
nas lembranças que me visitam,
nos gestos que ficaram em mim,
nas palavras que às vezes escuto
por dentro,
como se a sua voz
ainda soubesse o caminho
até o meu coração.

A sua ausência
não apagou a sua presença.

Só mudou a forma
como você permanece.

Você está no que eu sou,
no que aprendi,
no que sobrevivi,
no que continuo tentando ser
mesmo nos dias difíceis.

Está nas raízes
que o tempo não arranca.

Está no amor
que a morte não alcança.

E hoje,
quando essa data chega,
a saudade senta comigo
em silêncio.

Talvez os olhos
digam aquilo
que a boca não consegue.

Mas, mesmo assim,
eu te celebro.

Não como quem aceita
facilmente a ausência,
mas como quem reconhece
que certos amores
não terminam.

Eles apenas atravessam
a vida de outro jeito.

Feliz aniversário, mãe.

Onde quer que a sua luz esteja,
que ela receba
todo o amor
que ainda mora aqui.

Porque a senhora partiu,
mas o seu dia ficou.

E enquanto eu lembrar,
enquanto eu amar,
enquanto houver saudade
fazendo morada em mim,
haverá sempre uma parte sua
aniversariando
dentro do meu coração.

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