Há sentimentos que chegam sem aviso.
Entram devagar,
mas ocupam tudo.
Apertam o peito,
sobem à garganta,
acendem palavras
que talvez não precisem sair
da forma como chegaram.
A zanga é assim.
Às vezes nasce de uma injustiça.
Às vezes de um cansaço antigo.
Às vezes de uma dor guardada
que encontra, sem querer,
uma fresta para respirar.
Nem sempre é falta de calma.
Muitas vezes
é excesso de sentir.
Mas quando a zanga encontra a poesia,
alguma coisa se transforma.
O impulso ganha pausa.
O grito ganha ritmo.
A resposta dura se desfaz
antes de ferir.
O que queimava por dentro
encontra outro caminho.
Escrever, nesses momentos,
não é aumentar a raiva.
É escutá-la
sem deixar que ela conduza tudo.
É colocar no papel
aquilo que pesava no corpo.
É dar forma ao que estava confuso.
É permitir que o fogo
se torne linguagem.
Porque nem toda zanga precisa virar confronto.
Algumas precisam apenas
ser acolhidas com honestidade.
Algumas precisam sair
sem machucar ninguém.
Algumas só pedem
um lugar onde possam pousar
até perderem a força.
E há poemas que nascem assim:
não exatamente da paz,
mas da tentativa delicada
de chegar até ela.
Nascem com a alma ainda inquieta,
com o peito ainda quente,
com as mãos procurando palavras
onde antes havia apenas excesso.
Talvez seja isso que a escrita faça
quando a emoção é grande demais:
ela não apaga o que se sente,
mas oferece ao sentimento
um lugar mais sereno para pousar.
