Coleções de Leitura | Sinfonia de Palavras 2

Os Votos

Dizem que o amor mudou de roupa,
que agora veste planilhas, contratos,
contas divididas, metas alcançadas,
e uma rotina que funciona sem ruídos.

Talvez seja verdade.

Os tempos são outros.
As urgências são outras.
As casas custam mais,
os medos também.

Mas às vezes, em silêncio,
surge uma pergunta antiga:

O que aconteceu com os votos?

Com o “na alegria e na tristeza”,
com as mãos dadas diante do desconhecido,
com a escolha diária de permanecer
mesmo quando a vida perde o brilho?

Talvez seja ingenuidade.
Talvez seja apenas nostalgia.

Ou talvez ainda exista quem acredite
que casamento não seja apenas parceria,
nem apenas conveniência,
nem apenas um acordo bem administrado.

Que seja também abrigo.

Que seja a vontade de envelhecer ao lado de alguém
não porque é prático,
mas porque o coração insiste.

Num mundo que transforma tudo em cálculo,
amar pode parecer antiquado.

E ainda assim,

há quem continue procurando olhos
que enxerguem além da utilidade,

há quem deseje promessas
que não sejam feitas apenas para os dias fáceis,

há quem sonhe com um amor
que permaneça quando a razão já encontrou mil motivos para partir.

Talvez seja cafona.

Mas algumas coisas belas sobrevivem justamente porque são.

E entre todas elas,

talvez a mais corajosa seja acreditar
que o amor não precisa ser perfeito para durar,
apenas verdadeiro o bastante
para que dois corações, ao final de cada dia,
ainda encontrem razões para ficar.

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