Coleções de Leitura | Sinfonia de Palavras 2

As versões de nós que ficaram pelo caminho

Ao longo da vida,

não somos apenas uma pessoa.

Somos muitas.

Habitamos diferentes idades,
diferentes sonhos,
diferentes maneiras de enxergar o mundo.

Existe alguém
que fomos aos dez anos,

correndo atrás de nuvens
e acreditando
que tudo era possível.

Existe alguém
que fomos na juventude,

com os bolsos cheios de planos
e o coração transbordando futuros.

Existe alguém
que amou pela primeira vez.

Alguém que acreditou.

Alguém que esperou.

Alguém que se decepcionou.

E todos eles,

de alguma forma,

ainda vivem dentro de nós.

Mas nem todos chegaram até aqui.

Algumas versões ficaram pelo caminho.

A pessoa que acreditava
que nunca sentiria medo.

A pessoa que pensava
que o amor resolveria tudo.

A pessoa que imaginava
que o tempo seria infinito.

A vida foi transformando cada uma delas.

Nem por crueldade.

Mas porque crescer
é também despedir-se.

Despedir-se de certezas.

De ilusões.

De inocências.

De sonhos que já não cabem
na pessoa que nos tornamos.

Durante muito tempo,

olhamos para essas versões antigas
com saudade.

Perguntamo-nos
onde foram parar.

O que aconteceu
com aquele brilho.

Com aquela coragem.

Com aquela leveza.

Mas talvez a pergunta correta seja outra.

Talvez elas não tenham desaparecido.

Talvez tenham apenas
entregado algo de si

à pessoa que somos hoje.

A criança deixou a capacidade
de se encantar.

O jovem deixou a coragem
de sonhar.

As quedas deixaram sabedoria.

As perdas deixaram profundidade.

Os amores deixaram ternura.

E assim seguimos.

Carregando fragmentos
de todas as pessoas que já fomos.

Nenhuma delas completa.

Nenhuma delas perdida.

Todas presentes,

como anéis invisíveis
no tronco de uma árvore.

Não vemos cada estação separadamente.

Mas elas continuam ali,

guardadas na madeira,
na memória,
na alma.

Talvez amadurecer

não seja abandonar quem fomos.

Seja aprender
a agradecer.

Agradecer àquela pessoa
que sonhava sem limites.

Àquela que caiu e levantou.

Àquela que chorou.

Àquela que acreditou.

Àquela que resistiu.

Porque sem cada uma delas,

não existiríamos.

E quando olhamos para trás,

com ternura em vez de arrependimento,

descobrimos que as versões de nós
que ficaram pelo caminho

não ficaram realmente para trás.

Transformaram-se.

E continuam caminhando conosco,

silenciosamente,

em cada passo
da pessoa que nos tornamos.

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