Coleções de Leitura

A saudade tem muitos endereços

A saudade tem muitos endereços.

Nem sempre mora
na mesma rua da lembrança.

Às vezes vive
numa fotografia esquecida,
numa canção antiga,
num perfume levado pelo vento.

Outras vezes,

esconde-se em lugares improváveis.

Numa esquina qualquer.

Numa palavra ouvida por acaso.

Num sabor que atravessa anos
e devolve ao coração
um tempo que parecia distante.

Há saudades de pessoas.

De vozes.

De abraços.

Mas existem também
as saudades dos lugares.

Da casa onde a infância morou.

Da rua onde os sonhos aprenderam a caminhar.

Da janela que assistiu
tantos amanheceres.

E há saudades ainda mais silenciosas.

A saudade de quem fomos.

Dos planos que tínhamos.

Da coragem que existia
antes das primeiras feridas.

Da inocência que acreditava
que o mundo era simples.

A saudade conhece fronteiras,
mas não as respeita.

Atravessa oceanos.

Cruza continentes.

Viaja entre idiomas.

Instala-se no coração
de quem partiu
e também de quem ficou.

Por vezes chega suave,

como uma visita querida.

Traz um sorriso.

Uma lembrança bonita.

Uma história que aquece a alma.

Por outras,

chega sem aviso.

Abre gavetas antigas.

Acende luzes em quartos esquecidos.

E deixa os olhos perdidos
em paisagens que já não existem.

Mas a saudade
não é apenas tristeza.

Se fosse,

não carregaria tanta ternura.

A saudade é também
uma forma de amor.

A prova silenciosa
de que algo foi importante.

De que alguém deixou marcas.

De que um tempo vivido
continua florescendo na memória.

Talvez por isso
ela tenha tantos endereços.

Porque tudo aquilo
que toca profundamente o coração

encontra um lugar para permanecer.

Alguns vivem em fotografias.

Outros em cartas.

Outros em canções.

Mas os mais importantes

escolhem morar para sempre

na parte da alma

onde o tempo não consegue entrar.

E ali permanecem,

como luzes acesas ao longe,

lembrando que certas distâncias
nunca conseguem separar

aquilo que foi verdadeiramente amado.

8 comentários em “A saudade tem muitos endereços”

  1. Além de todas as saudades pretéritas, agora tenho saudades de futuro que nunca vivi e que assusta.

    1. Que lindo… há saudades que moram no passado, mas também existem aquelas que nascem dos sonhos que ainda não chegaram. Que esse futuro venha com mais ternura do que medo. 💛✨

  2. BIA,

    você concentra em seus textos / poemas conceitos (digo assim: conceitos) elegantes, desconcertantes para os prevenidos e para os aéreos ou os momentaneamente distraídos. Um exemplo muito bom : “A saudade tem muitos endereços.” Sim, a saudade deixa muitos rastros, vias , trilhas , solos, risos e nuvens em nós .

    DARLAN

    1. Darlan 😊

      Que bonito isso que você escreveu.

      E agora que você falou em “endereços”, confesso que o título pode mesmo ter um duplo sentido brincalhão… Afinal, há saudades que moram em ruas, cidades e países, mas existem aquelas que insistem em fazer residência permanente dentro da gente. E dessas não adianta mudar o CEP. 😄

      Gostei muito da sua leitura. Talvez a saudade seja exatamente isso: uma viajante teimosa, deixando rastros, trilhas, nuvens e até alguns sorrisos pelo caminho. Às vezes ela bate à porta da memória sem avisar e entra para um café.

      Muito obrigada pelo olhar generoso sobre meus escritos. É sempre uma alegria encontrar suas reflexões passeando pelos corredores do Sinfonia de Palavras.

      Aquele abraço! ✨

      Bia

      1. Acho que você não leu essa postagem de poucos dias atrás. Nem corra: quando tiver um tempo, passe os olhos. AQUI: https://uaima.wordpress.com/2026/06/03/um-pouco-de-silencio-a-little-silence/

        Às vezes, gravo alguma canção de modo informal aqui em casa ou nalgum estúdio particular de gente amiga. Acho que tenho um que não está de todo “horrorível”.

        Prefiro enviar a gravação, se for o caso, via e-mail comum. Violão desafinado, violonista pra lá de desafinado, um horror, ponha tapa-ouvidos… hehe…

        DARLAN

      2. Darlan,

        Fui ler “Um pouco de silêncio” e, depois, ouvir a canção que você indicou. Que combinação bonita.

        Seu texto me fez sorrir, pensar e até me sentir um pouco convocada por essa insurreição das borboletas, abelhas, uirapurus e demais representantes da bicharada contra os excessos humanos. Há humor ali, mas também um alerta delicado sobre o barulho que fazemos no mundo e dentro de nós mesmos.

        E que surpresa foi ouvir “Pois é, pra quê?”, de Sidney Miller, na interpretação do MPB-4. Eu não conhecia a canção. Fiquei encantada. Dessas músicas que parecem chegar baixinho e, quando percebemos, já encontraram morada em algum canto da alma.

        Entendi melhor sua indicação depois de ler o texto. A música e a crônica parecem conversar entre si. Ambas fazem perguntas que não exigem respostas imediatas, apenas um pouco mais de atenção, um pouco mais de silêncio.

        Quanto à história do violão desafinado e do cantor “horrorível”, permita-me desconfiar dessa versão dos fatos… hehe. Tenho a impressão de que existe um contador de causos muito bem-humorado tentando sabotar a própria reputação artística. Escritores costumam ser perigosamente modestos quando falam dos próprios talentos.

        Obrigado pela leitura e pela música. Recebi as duas como quem recebe um presente inesperado.

        Um abraço carinhoso, daqui das terras nórdicas,

        BIA 🌷

Comentário também é uma forma de abraço: