Coleções de Leitura | Sinfonia de Palavras 2

A saudade tem muitos endereços

A saudade tem muitos endereços.

Nem sempre mora
na mesma rua da lembrança.

Às vezes vive
numa fotografia esquecida,
numa canção antiga,
num perfume levado pelo vento.

Outras vezes,

esconde-se em lugares improváveis.

Numa esquina qualquer.

Numa palavra ouvida por acaso.

Num sabor que atravessa anos
e devolve ao coração
um tempo que parecia distante.

Há saudades de pessoas.

De vozes.

De abraços.

Mas existem também
as saudades dos lugares.

Da casa onde a infância morou.

Da rua onde os sonhos aprenderam a caminhar.

Da janela que assistiu
tantos amanheceres.

E há saudades ainda mais silenciosas.

A saudade de quem fomos.

Dos planos que tínhamos.

Da coragem que existia
antes das primeiras feridas.

Da inocência que acreditava
que o mundo era simples.

A saudade conhece fronteiras,
mas não as respeita.

Atravessa oceanos.

Cruza continentes.

Viaja entre idiomas.

Instala-se no coração
de quem partiu
e também de quem ficou.

Por vezes chega suave,

como uma visita querida.

Traz um sorriso.

Uma lembrança bonita.

Uma história que aquece a alma.

Por outras,

chega sem aviso.

Abre gavetas antigas.

Acende luzes em quartos esquecidos.

E deixa os olhos perdidos
em paisagens que já não existem.

Mas a saudade
não é apenas tristeza.

Se fosse,

não carregaria tanta ternura.

A saudade é também
uma forma de amor.

A prova silenciosa
de que algo foi importante.

De que alguém deixou marcas.

De que um tempo vivido
continua florescendo na memória.

Talvez por isso
ela tenha tantos endereços.

Porque tudo aquilo
que toca profundamente o coração

encontra um lugar para permanecer.

Alguns vivem em fotografias.

Outros em cartas.

Outros em canções.

Mas os mais importantes

escolhem morar para sempre

na parte da alma

onde o tempo não consegue entrar.

E ali permanecem,

como luzes acesas ao longe,

lembrando que certas distâncias
nunca conseguem separar

aquilo que foi verdadeiramente amado.

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