Para quem tenta curar agora o que doeu lá atrás.
Nem sempre as dores mais intensas são as que se podem nomear.
Algumas nasceram quando ainda nem sabíamos falar.
Vieram de silêncios longos demais.
De gritos que nunca foram ouvidos.
De ausências disfarçadas de presença.
De palavras duras lançadas como se fossem verdades eternas.
Às vezes, a ferida não foi um ato isolado.
Foi a repetição do descuido,
a falta de acolhimento,
o afeto que vinha com condição,
ou o amor que machucava mais do que abraçava.
Carregamos essas marcas invisíveis por anos.
Nos tornamos adultos tentando provar que somos bons o bastante.
Vivemos em busca de amor, mas com medo de sermos vistos de verdade.
Repetimos padrões que não entendemos.
Nos sabotamos, nos cobramos, nos escondemos…
tudo para não tocar na dor antiga que nunca foi validada.
Mas um dia — talvez hoje —
a alma começa a pedir cura.
E não é com pressa.
É com gentileza.
É quando começamos a olhar para dentro sem medo.
É quando reconhecemos:
“isso doeu em mim… mas não define quem eu sou.”
Cuidar das feridas da infância não é sobre encontrar culpados.
É sobre encontrar caminhos.
É sobre dar à criança que fomos o cuidado que faltou.
É sobre ser agora o que precisávamos que alguém tivesse sido.
Porque a cura pode ser lenta.
Mas começa no instante em que paramos de fugir da dor
e passamos a escutá-la com amor.
