Nem todo caminho
nasce para ser contado.
Há planos
que chegam ao coração
como uma pequena chama,
tão discreta
que qualquer vento apressado
poderia fazê-la vacilar.
Talvez por isso
a vida ensine,
sem dizer uma única palavra,
que algumas sementes
não pedem anúncios.
Pedem terra.
Enquanto os olhos procuram
aquilo que já floresceu,
quase ninguém percebe
o trabalho invisível
que acontece sob a superfície.
A raiz
não disputa atenção.
Não explica
a direção que escolheu.
Apenas desce,
pacientemente,
até encontrar
onde possa permanecer.
Há sonhos
que enfraquecem
quando precisam
da aprovação do mundo.
E há outros
que se tornam mais fortes
porque aprenderam
a amadurecer
na companhia do silêncio.
Existe um tempo
em que falar
parece aproximar
aquilo que desejamos.
Mas existe outro,
mais profundo,
em que as palavras
consomem a energia
que deveria continuar
construindo.
Como quem abre,
todos os dias,
o botão de uma flor
para verificar
se ela já está pronta.
A pressa,
às vezes,
machuca justamente
aquilo
que pretendia ajudar.
O silêncio
não é ausência.
É cuidado.
É o espaço
onde as intenções
podem crescer
sem o peso
das expectativas alheias,
sem comparações,
sem a necessidade
de convencer alguém
de que um futuro
merece existir.
Porque nem tudo
o que é precioso
precisa ser visto
antes do tempo.
O rio
não anuncia
cada curva
que irá atravessar.
A madrugada
não avisa
o instante exato
em que entregará
o primeiro raio de luz.
A árvore
não reúne testemunhas
para contar
que uma nova folha
está prestes a nascer.
A vida,
em sua sabedoria,
realiza quase tudo
em silêncio.
Talvez exista nisso
uma delicadeza
que esquecemos.
A de compreender
que alguns projetos
não precisam
de muitas vozes.
Precisam
de constância.
Precisam
de dias comuns,
de pequenos gestos,
de perseverança
quando ninguém aplaude,
de confiança
quando ainda não há sinais.
E então,
quando finalmente chegam,
não carregam
a necessidade
de provar coisa alguma.
São como a primavera.
Ninguém escuta
o instante
em que uma flor desabrocha.
Ainda assim,
pela manhã,
ela está ali.
Inteira.
Talvez os planos
mais bonitos
sejam aqueles
que aprenderam
a caminhar
de mãos dadas
com o silêncio.
Não porque temam
o olhar dos outros.
Mas porque compreenderam
que há sonhos
que florescem melhor
quando o mundo
só conhece
a história
depois que ela
já se tornou
realidade.
