Família e Pertencimento, Reflexões Sociais e Existenciais

Cheiros que perfumam a memória

Há cheiros que parecem ter alma.

Um perfume antigo,
um sabonete usado na infância,
um shampoo que marcou uma fase,
um creme passado depois do banho,
um desodorante,
uma colônia simples,
um produto de higiene que, para muitos, seria apenas rotina,
mas para a memória se torna um portal.

Porque alguns aromas não ficam apenas na pele.

Ficam no tempo.

Basta sentir de novo aquele cheiro
e algo dentro de nós atravessa os anos.

A infância volta em silêncio.
A juventude reaparece como um vento morno.
Uma fase da vida, que parecia distante,
se aproxima com uma força delicada,
quase impossível de explicar.

Há perfumes que carregam pessoas.
Há sabonetes que carregam casas.
Há shampoos que guardam manhãs antigas.
Há cremes que devolvem quartos, espelhos, mochilas, roupas, sonhos,
e aquela versão de nós
que ainda estava descobrindo o mundo.

Às vezes,
um cheiro simples
tem mais poder do que uma fotografia.

A imagem mostra o que foi.
O aroma faz sentir de novo.

Traz de volta a sensação de um tempo,
o jeito de uma época,
a leveza de certos dias,
a pressa da juventude,
a inocência da infância,
os cuidados pequenos
que pareciam comuns,
mas ficaram enormes quando viraram saudade.

E então percebemos
que a vida também se guarda assim:
em frascos,
em espumas,
em toalhas limpas,
em cabelos molhados,
em pele perfumada,
em produtos que fizeram parte
de uma rotina que nunca imaginamos sentir falta.

Certos cheiros não voltam sozinhos.

Eles trazem junto
lugares,
pessoas,
vozes,
banheiros antigos,
corredores,
escolas,
domingos,
saídas,
encontros,
esperas
e sonhos que pertenciam a uma fase inteira da vida.

Talvez por isso alguns aromas emocionem tanto.

Eles não apenas lembram quem fomos.
Eles abraçam, por alguns segundos,
uma parte nossa que o tempo levou adiante,
mas nunca apagou.

Porque existem memórias
que não moram apenas na mente.

Moram no perfume que ficou,
no sabonete que marcou,
no shampoo que atravessou os anos,
na colônia de uma época,
e nessa saudade bonita
de tudo aquilo que um dia perfumou a vida.

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