Há pensamentos
que chegam apenas para passar,
mas encontram portas abertas
e acabam ficando tempo demais.
Sentam-se no meio da alma,
repetem as mesmas frases,
aumentam os mesmos medos,
revivem as mesmas cenas
como se o ontem ainda estivesse acontecendo.
A mente, às vezes,
confunde cuidado com repetição.
Acredita que pensar mais
é encontrar saída.
Mas nem todo pensamento insistente
traz resposta.
Alguns apenas cansam.
Alguns apenas apertam.
Alguns apenas fazem doer de novo
aquilo que já precisava descansar.
Há ciclos mentais
que parecem proteção,
mas viram cárcere.
A pessoa revisita conversas,
imagina desfechos,
cria possibilidades,
antecipa perdas,
procura sinais
até perder a própria paz.
E, sem perceber,
passa a morar
dentro do que teme.
Mas o pensamento
não precisa virar prisão.
É possível olhar para ele
sem obedecer.
Escutá-lo
sem segui-lo.
Reconhecer sua presença
sem entregar a ele
a direção do dia.
A liberdade começa
quando a mente percebe
que nem tudo precisa ser resolvido
pela força da repetição.
Às vezes,
a resposta não vem
porque se pensa demais.
Vem quando se respira.
Quando se solta.
Quando se permite
sair um pouco
do labirinto.
Porque há pensamentos
que só perdem força
quando deixam de receber alimento.
E há paz
quando a alma entende:
nem toda ideia
merece uma chave.
Nem todo medo
merece uma casa.
Nem todo pensamento
precisa se tornar
destino.
